A BALEIA
Nando
da Costa Lima

Em Feira a
bicha já tava cheirando mal, mas dava pro pessoal encostar. Quando chegou em
Jequié o fedor já espantava gente, ainda assim dava pra expor. Parou em Poções
só pra remendar a “bichona”, usou pedaços de lona para tampar os buracos que já
apareciam com a decomposição. Teve até um poeta de lá que escreveu um verso que
ficou famoso na época: “A BALEIA NADA, NADA, NADA, NADA E NADA...”. (E olha que
nessa época nem se falava em minimalismo). Quando chegou aqui em Conquista já
tava com um cheiro insuportável, mas mesmo assim foi exposta na Praça da
Bandeira. Um cego que fazia “ponto” na porta da catedral fez até um infeliz
comentário que levou o padre a expulsá-lo: “Parece que a mulherada de Conquista
resolveu fazer greve e parou de tomar banho de vez, aí lascou!“. Fedeu a cidade
toda, o prefeito mandou Belmiro ir embora com aquilo no mesmo dia, o cheiro
tava de matar. Quando chegou em Minas a polícia o obrigou a voltar ou a dar fim
naquela coisa tão fedorenta, foi o jeito enterrar a baleia. O dinheiro que
ganhou foi todo embora com a empreitada pra cavar um buraco e enterrar o animal.
Só ficou o apelido: Belmiro Peixe Podre.
Só não sei
exatamente onde foi o enterro, mas foi até bom escrever
isso pra servir de alerta: se por acaso algum arqueólogo encontrar a ossada da
baleia que foi enterrada no norte mineiro, não vá deduzir que aquilo é uma
prova concreta de que Minas já teve mar. Foi só um empreendimento que não deu
certo. Se você conquistense tiver algum parente beirando os noventa, pergunte
pela baleia. Dr. Ruy Medeiros, que é historiador, deve saber desse causo mais
detalhadamente, deve até ter tirado uma fotografia da “baleiona”...
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