A MÍDIA, O PÚBLICO E A FALTA DE CRÍTICA NAS
OLIMPÍADAS
Jeremias Macário
Se as Olimpíadas foram
programadas no Brasil com capricho para que tudo desse certo foi mais por se
tratar de um evento internacional com o fim precípuo de desfazer a imagem
negativa do país lá fora. O público interno foi beneficiado por consequência e
não por respeito a ele. Por que, só para citar um exemplo, continua a violência
nos estádios de futebol? Rezemos para que toda estrutura não comece a ser
desmontada e vire um grande elefante branco logo depois dos jogos
paraolímpicos!
Concordo aqui com meu amigo e jornalista
Carlos Gonzalez que demonstrou através de números, sem subterfúgios, que o
resultado do Brasil nas competições foi pífio, principalmente quando feito um
paralelo entre os investimentos e as medalhas adquiridas. Qual o índice de
produtividade de 17 medalhas para 19 em quatro anos? Aliás, em se referindo a
outros setores da nossa vida, produtividade é um palavrão que não existe no
dicionário do Brasil.
Passada a festa, voltamos a cair na amarga
realidade das escolas com instalações precárias, do ensino deficitário, do
amontoado de doentes nos corredores dos hospitais, das quilométricas filas do
SUS para se marcar um exame médico, da violência nas ruas, da falta de justiça
aos mais necessitados, das desigualdades sociais e do roubo escancarado aos
cofres públicos, só para ficar nestas mazelas.
Esta grande mídia das
emissoras comandadas por sete famílias é quase toda ela desprovida de postura
crítica com a qual faz as pessoas questionarem e se indignarem com as mentiras.
Ela não informa, mas deforma e manipula uma plateia inculta que aprendeu, como
papagaios, a dizer a mesma coisa de sempre, sem pensar e refletir sobre os
fatos e acontecimentos. Poucos são dados ao contraditório. Quem faz isso é mal
visto. Ainda esta semana li algo que dizia que o brasileiro retomou sua
autoestima com o “êxito do evento”. Só se foi para eles mesmos.
Aliás, neste país nosso continental, belo e
rico, só se produz chavões, frases e enunciados padronizados dentro do
politicamente correto encomendado. Todos vão de carreirinha, conduzidos como
gado que come do mesmo pasto da mídia. A grande maioria balança a cabeça e bate
palmas para apoiar as ordens dos patrões elitistas e conservadores. Os
ufanistas aparecem para acender a pira de uma autoestima que eles mesmos
fizeram questão de apagar ao longo dos anos com a vil exploração.
Precisamos de uma mídia que faça e “obrigue”
as pessoas a pensarem, a refletireme a entenderem que “nem tudo que reluz é
ouro”. Estão nos enfiando goela abaixo um jornalismo tipo arara, emplumado de
adjetivos e superlativos, sem massa crítica. A galera ovaciona.
As Olimpíadas, por exemplo, foram organizadas
muito mais para satisfazer o público externo que o interno. Se os eventos
programados, as obras e atividades desenvolvidos em prol dos brasileiros
tivessem um toque de seriedade de pelo menos 60 a 70% do que foi preparado,
realizado e cumprido pelas Olimpíadas, já seria um grande feito e o Brasil
seria outro em termos de satisfação do seu povo.
Depois que os estrangeiros se vão, oxalá
esteja errado, tudo ou quase tudo é desfeito e ficamos aqui a ver navios. Os
brasileiros, na verdade, só foram beneficiários desses privilégios de
organização (houve inúmeras falhas), ordenamento e segurança porque se tratou
de um evento internacional. Como se diz na gíria, pegamos a rebarba ou pongamos
no trem.
Depois das festanças, voltamos ao ponto de
antes, com algumas exceções nos casos dos transportes públicos e requalificação
de praças e avenidas em torno do evento no Rio de Janeiro. No mais, voltamos a
conviver com as injustiças, com as obras inacabadas, com as corrupções e com as
promessas vãs dos políticos.
Estamos atolados e nos afundando no
retrocesso das conquistas trabalhistas e sociais, enquanto nos digladiamos com
idiotices e imbecilidades em definir e conceituar o que é direita e esquerda,
expelindo ódio e intolerância. A grande mídia descompensa e tendenciosa
reverencia e idolatra seu bolo todo colorido por fora. A plateia histérica
aplaude sem perguntar sobre os ingredientes e o que tem dentro dele que tanto
encanta.


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